terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje


DEUS SABE OS SONHOS DISPERSOS
QUE O VENTO LEVA NA MÃO - mote
(José Régio)

Histórias, lendas, encantos,
Murmúrios de gente triste,
E tu perdido entre tantos
Sem pensares que o mundo existe!

Tantas saudades nos olhos,
Rosas perdidas nas mãos,
Sonhos fundidos aos molhos
Golpes sofridos de irmãos!

Poeta de tristes versos
Que és da minha geração,
DEUS SABE OS SONHOS DISPERSOS
QUE O VENTO LEVA NA MÃO...

Sonha poeta, percorre
Os duros cantos da vida,
Repara que gente morre
À sombra de gente erguida.

Cria contigo outro alento,
Eleva-o em altos sons,
Transforma-o a teu contento,
Aproveita excelsos dons
Que por demais controversos
Exala teu coração!

DEUS SABE OS SONHOS DISPERSOS
QUE O VENTO LEVA NA MÃO.

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - Portugal), do livro ESPERANÇAS, editado pela Câmara Municipal da Figueira da Foz.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje


SILÊNCIO E... NADA

Silêncio e espaço!
Medos e angústias,
Constante o adormecer das consciências...
Verdades e tormentos
E ainda o silêncio das noites longas!

Silêncio e nada!
Regressos impossíveis...
Irremediáveis os zeros do destino.
Vazios e tremores,
E ainda o insondável mundo do silêncio!

Silêncio e dor!
Adormecem-me os sentidos,
E os olhos refletem as agruras
Que um sorriso nega a todo o transe.

E ainda o intransponível mundo do silêncio!

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - Portugal)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje



Ainda bem que vieste

Chegaste em fim de tarde de acalmia
Quando mal despontava a primavera,
e já o amor em meu peito era utopia,
Vergado sob o carrego da espera.

Surgiste como barco no horizonte
A quem se acena com lenços de esperança,
Serias o brotar de nova fonte,
Aliciante brinquedo de criança.

Mas se vieste apenas de passagem,
Alimentar minh'alma de coragem,
P'ra que de novo vivesse sonho lindo,

Quero dizer-te, Amor, sem ironia,
Mesmo sabendo perder-te algum dia,
Foi bom que mesmo assim tivesses vindo!

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - Portugal)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje


CONFLITO

Minh'alma quebrou-se ao congelar
A fragilidade latente.
Volatizou-se a visão
Que acalentava meus dias,
Caiu a terra nos restos
Duma imagem permanente.

Findaram-se no insondável
De teias invulneráveis
Os passos firmes e lestos
De quem tudo pressentia.
Finou-se a peregrinação
De quem implorava amor.

Resta a fé num próximo e pleno encontro,
Sobra a confiança no eterno,
O passo decisivo no desconhecido,
A luta entre o sonho, o pesadelo e a verdade,
P'ra que sejam mais firmes os meus passos
Numa terra confusa e delirante.

Persiste o conflito entre o estar e o partir,
Entre o renunciar e o prosseguir,
Na perspetiva de que a felicidade,
Por essa fé,
Há-de voltar a acontecer.

E voltaremos a encontra-nos.

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - 1991)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Um poema para hoje


Canto a Vida

Eu canto os rios, ribeiros, canto as fontes,
E beijo as suas águas cristalinas,
Canto a beleza dos vastos horizontes,
O chilrear das aves matutinas.

Eu canto os ternos bens, as frescas madrugadas,
A Natureza Mãe que pôs ao meu dispor
Retos caminhos p'ra retas caminhadas,
Plenas de paz num mundo só de amor.

Eu canto os bons amigos, supremas amizades,
Que na vida constroem felicidades
E nos dão forte alento p'ra viver.

Canto o Sol, o Amor, eu canto a Vida,
Eu canto a poesia a Deus erguida
Por tanto que me deu sem o merecer!

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - 1982)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Um poema para hoje


A Minha Selva

Quem pensas tu que és
Ao pretenderes impedir
O desbravar da minha selva,
E ao quereres controlar
O impulso dos meus próprios movimentos?

Quem pensas tu que sou
Para te julgares senhor e rei
Dum reino que criei
Na minha fantasia?

Rei sou eu e a selva é minha,
A tua imensidão não me intimida
Porque sou Homem e a selva é grande!

Pensa e desiste, amigo, não procures
Ir além do torreão das tuas próprias forças,

Até porque eu sou Eu.

Aníbal José de Matos - Figueira da Foz

sábado, 7 de janeiro de 2012

Fernando Pessoa


Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
E ao beber nem recorda

Que já bebeu na vida,

Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.


Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,

Ele sabe que a vida

Passa por ele e tanto

Corta à flor como a ele

De Átropos a tesoura.


Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,

Que o seu sabor orgíaco

Apague o gosto às horas,

Como a uma voz chorando

O passar das bacantes.


E ele espera, contente quase a bebedor tranquilo,

E apenas desejando

Num desejo mal tido

Que a abominável onda

O não molhe tão cedo.


Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa). Fernando Pessoa, de seu nome completo Fernando António Nogueira Pessoa, foi o maior poeta português do século XX. Nasceu em Lisboa a 13 de junho de 1888 e faleceu na mesma cidade em 30 de novembro de 1935. Nascendo no dia de Santo António (Fernando de Bulhões), foi-lhe dado o nome de Fernando e de António. Utilizou vários heterónimos, sendo os mais conhecidos os de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. MENSAGEM foi, talvez, a sua obra mais conhecida mas a sua produção foi muito vasta.
 
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