domingo, 12 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje

Quadro de Auguste Macke (pintor alemão - 1887 - 1914)

Fidelidade

O abismo atrai-me,
As emoções adormecem-me,
O teu sorriso inibe-me,
Os teus lábios subornam-me.

Sei que o teu coração tem um espaço
Que prevarico a preencher,
Porque te olho
E quedo-me no teu corpo.

Vejo, quando me afasto,
Que poderia ser-te mais fiel.

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz – Portugal) – Do seu livro EMBARQUE EM SOBRESSALTO

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje


CONNOSCO, A SOLIDÃO

Romper as barreiras do Além,
Sobrepondo-nos às sombras do poente,
Gritar na imensidão do Universo
Sem sequer saber se nos escutam.

Abraçar o impossível e chorar
Até ao infinito desta mágoa
Que nos persegue, nos dói e nos fustiga
E agora viaja a nosso lado.

O sol lançou-se há pouco no ocaso
Legando-nos um frio desgastante.

Mais vulneráveis à dor então ficámos.

Oh solidão fiel que não desarmas!

Aníbal José de Matos - Figueira da Foz - Portugal (1992)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje


LIBERDADE

Ambicionava usufruir da liberdade dos cisnes
que volteiam nos lagos do jardim,
a liberdade dum plátano verdejante
osculando as suas águas ternamente,
a própria liberdade das crianças
que aos cisnes oferecem o pão do seu amor,
a liberdade da água que goteja
nas gargantas das pombas sequiosas...

Ser livre como as almas sonhadoras
liberto do fardo dos costumes,
ser livre como as aves que me cercam
felizes pela entrega deste milho
que lhes dou em renúncia do meu ser...

Eu queria serrar os elos das correntes
que me arrastam na prisão da minha era,
aspirar profunda e livremente
a liberdade daqueles que são livres!

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - Portugal) - 1982 (Escrito junto ao antigo lago do Jardim Municipal da Figueira da Foz)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje


DEUS SABE OS SONHOS DISPERSOS
QUE O VENTO LEVA NA MÃO - mote
(José Régio)

Histórias, lendas, encantos,
Murmúrios de gente triste,
E tu perdido entre tantos
Sem pensares que o mundo existe!

Tantas saudades nos olhos,
Rosas perdidas nas mãos,
Sonhos fundidos aos molhos
Golpes sofridos de irmãos!

Poeta de tristes versos
Que és da minha geração,
DEUS SABE OS SONHOS DISPERSOS
QUE O VENTO LEVA NA MÃO...

Sonha poeta, percorre
Os duros cantos da vida,
Repara que gente morre
À sombra de gente erguida.

Cria contigo outro alento,
Eleva-o em altos sons,
Transforma-o a teu contento,
Aproveita excelsos dons
Que por demais controversos
Exala teu coração!

DEUS SABE OS SONHOS DISPERSOS
QUE O VENTO LEVA NA MÃO.

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - Portugal), do livro ESPERANÇAS, editado pela Câmara Municipal da Figueira da Foz.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje


SILÊNCIO E... NADA

Silêncio e espaço!
Medos e angústias,
Constante o adormecer das consciências...
Verdades e tormentos
E ainda o silêncio das noites longas!

Silêncio e nada!
Regressos impossíveis...
Irremediáveis os zeros do destino.
Vazios e tremores,
E ainda o insondável mundo do silêncio!

Silêncio e dor!
Adormecem-me os sentidos,
E os olhos refletem as agruras
Que um sorriso nega a todo o transe.

E ainda o intransponível mundo do silêncio!

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - Portugal)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje



Ainda bem que vieste

Chegaste em fim de tarde de acalmia
Quando mal despontava a primavera,
e já o amor em meu peito era utopia,
Vergado sob o carrego da espera.

Surgiste como barco no horizonte
A quem se acena com lenços de esperança,
Serias o brotar de nova fonte,
Aliciante brinquedo de criança.

Mas se vieste apenas de passagem,
Alimentar minh'alma de coragem,
P'ra que de novo vivesse sonho lindo,

Quero dizer-te, Amor, sem ironia,
Mesmo sabendo perder-te algum dia,
Foi bom que mesmo assim tivesses vindo!

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - Portugal)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Um poema para hoje


CONFLITO

Minh'alma quebrou-se ao congelar
A fragilidade latente.
Volatizou-se a visão
Que acalentava meus dias,
Caiu a terra nos restos
Duma imagem permanente.

Findaram-se no insondável
De teias invulneráveis
Os passos firmes e lestos
De quem tudo pressentia.
Finou-se a peregrinação
De quem implorava amor.

Resta a fé num próximo e pleno encontro,
Sobra a confiança no eterno,
O passo decisivo no desconhecido,
A luta entre o sonho, o pesadelo e a verdade,
P'ra que sejam mais firmes os meus passos
Numa terra confusa e delirante.

Persiste o conflito entre o estar e o partir,
Entre o renunciar e o prosseguir,
Na perspetiva de que a felicidade,
Por essa fé,
Há-de voltar a acontecer.

E voltaremos a encontra-nos.

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz - 1991)
 
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