terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

António Corrêa d'Oliveira




Sinto às vezes, tão negro abatimento,
Tão funda noite de alma, que parece
Que tudo se perturba e desfalece
Num fundo universal de pensamento.

E sofro. E choro; e logo cobro alento,
Como se em minhas lágrimas bebesse
O génio da revolta a que estremece
A terra do seu próprio fundamento.

Arde na treva a minha voz erguida;
- Acaso existe Deus? Aonde? Aonde?
Qual o sentido, a perfeição da vida? –

Cai um silêncio exânime do céu…
Mas eis que deste mundo me responde
Teu coração, batendo junto ao meu.

António Corrêa d’Oliveira, da sua obra OS TEUS SONETOS.

A propósito deste poeta português, escreveu Augusto Frederico Shhemidt em O JORNAL, Rio de Janeiro, a 3 de Junho de 1937:

“António Corrêa d’Oliveira é sem dúvida uma das vozes mais profundas da poesia portuguesa contemporânea.
No meio da hora em que vivemos, tão apressada, tão tumultuária, tão violenta nas suas cores, António Corrêa d’Oliveira é uma pausa de silêncio, de ternura e de meditação. A luz que nos vem da sua poesia – é uma luz modesta e doce. É a luz amiga e azul duma candeia. Ilumina, porém, de uma maneira misteriosa, a terra - a terra de onde nos vem a vida, e onde nos esconderemos todos um dia para fruir as núpcias com a Morte.”
O poeta nasceu em São Pedro do Sul em 30 de julho de 1878 e faleceu em Esposende a 20 de Dezembro de 1960.
Escreveu, entre muitas outras obras, LADAÍNHA, EIRADAS, RAIZ, ELOGIO DOS SENTIDOS, DIZERES DO POVO, A MINHA TERRA, MARE NOSTRUM, SAUDADE NOSSA, REDONDILHAS e AZINHEIRA EM FLOR
.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Trovadores brasileiros


Esta palavra saudade
É tão doce e tão sonora,
Que quem a disse primeiro
Já estava chora-não-chora!...

Aires de Montalto


Coração que se reparte
A muitos torna infeliz;
Amores por toda a parte
Sempre deixam cicatriz.

Soares Bulcão


Quanto mais o tempo corre,
Mais corre o tempo da gente,
E quem ao tempo recorre,
Perde o tempo inutilmente.

Simão da Costa

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011



APELO AO VENTO

Da praia imensa a brisa te levou
De meus olhos para lá do horizonte,
E as penas que meu peito soluçou
Não vislumbro no mundo quem as conte.

E fui chorando meu choro devagar
Tal como a brisa que te afastou de mim,
E nem aquela força de te amar
Evitou que teu amor chegasse ao fim.

E esse enlevo que despertava madrugadas
E sorria sempre que chegavas
Despertando no meu leito o arrebol,

Não sei se se perdeu com o meu lamento!
Possa a brisa dar lugar ao vento
E que regresses mesmo ao pôr-do-sol.

Aníbal José de Matos (Figueira da Foz – Portugal) - Dezembro 2010

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Miguel Torga


M Ã E

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga

Miguel Torga, pseudónimo do médico Adolfo Correia Rocha,nasceu em São Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, em 12 de Agosto de 1907 e faleceu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995. Foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, considerado mesmo, por alguns, o poeta português mais importante do século XX.

O poema aqui reproduzido foi cantado, entre outros, por Frei Hermano da Câmara.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

R e g r e s s o



Vê como adormece o Sol no horizonte
Na almofada do poente repetido,
Os pássaros se recolhem ansiosos
Escondendo-se entre a folhagem
Da noite que pressentem insegura.

Repara como o dia traz a luz
Que fugitiva se escondera no ocaso,
E as aves se agitam novamente
Na alegre surpresa do regresso
Do astro que ontem se ocultara.

Aníbal José de Matos

terça-feira, 28 de dezembro de 2010


Segue

Não guardes o que se perdeu no tempo
Nem chores pelos ribeiros
Que dividem o amor com os riachos.

Não te percas em labirintos
Que se confundem com o vento
Que sopra de todos os quadrantes.

Livra-te dos escolhos
Que te prendem com fios invisíveis
A terrenos inconformados.

Caminha por veredas verdejantes
Que te alimentem o espírito
E não te consumam a alma.

Aníbal José de Matos
(Figueira da Foz - Portugal)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

NATAL - 2010

Filemon F. Martins


DESEJO DE NATAL

Se eu pudesse compor, eu comporia
um poema de paz e de ventura,
cujas palavras cheias de ternura
fossem do amor a eterna melodia.

Se eu soubesse cantar, eu cantaria
nesta Noite de Luz e de doçura,
e toda a Terra venturosa e pura
minha canção a Deus entoaria!

Pois nesta Noite de Natal, de glória,
um menino mudou a própria história
da Humanidade que não tinha Fé...

Que em cada coração aqui presente
possa nascer, feliz, eternamente,
O SINGULAR JESUS DE NAZARÉ!

Filemon F. Martins
Filemon Francisco Martins. Cursou Administração de Empresas, na FACES, em São Paulo (Brasil), contudo, por concurso público, trabalhou no Tribunal Regional Federal - 3ª Região, onde se aposentou. Escreve crónicas, artigos, poesias, ensaios e outros.
 
contador online gratis