sábado, 3 de dezembro de 2016

José António Matos

 
DE UM CANSAÇO
 
Tensa está a carne e não respira
no silêncio do torso que escurece
e cai, quando a tarde por nós desce.
 
Nos olhos um ruído que transpira,
antes do grito que é preciso e que não cresce.
 
E é quase tudo não, não vale a pena,
que o desejo enfada e, certo dia,
à noite negarei quanto não faço.
 
José António Matos, de seu nome completo, José António Neto e Matos, natural e residente na Figueira da Foz,.
Poema extraído do seu novo livro "QUE VENHAM AS AVES".
 
 

domingo, 12 de junho de 2016

Aníbal José de Matos



ESPERANÇA SEM SENTIDO

 

A esperança esvai-se entre meus dedos

Acossada por medos doentio

Que me roubam o discernimento

E impedem de divisar o horizonte

Limitando espaços e ternuras.

 

Invade-me a apatia

E remorsos forçam a entrada

Remoendo entranhas e minando artérias,

Entorpecendo saudades dolorosas

E avivando feridas entreabertas.

 

Ainda sonho em sorrir

Mas um rio de lágrimas

Dilata as margens do meu pranto

E as amarras que me tolhem

Impedem que te ame e encha teu regaço de flores.

 

Sombras aprisionam réstias da esperança

Que ainda vagueava sem sentido

Estupidamente à espreita dum regato

A transformar-se num mar

Que me levasse ao calor dos teus abraços.

 

Esperança que morre de tortura

À míngua do carinho do teu seio.
 
 
An+ibal Jos+e de Matos (Figueira da Foz)

sexta-feira, 20 de maio de 2016


Miguel Torga

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.
 
Miguel Torga, pseudónimo do médico Adolfo Correia da Rocha, (1907 - 1995).
Poeta e escritor português.
 

domingo, 15 de maio de 2016


Cidália Rodrigues
 


Do patamar

Do patamar da varanda
Vejo a escola onde andei,
Ponho-me a olhar…
E por entre os verdes ramos da laranjeira
Vejo o que foi o sonho…

Há Luz no recreio
Saltos e palmas, 
Que alegria
VER todas as crianças a brincar na primavera
Esquecer o frio e chuva do duro inverno
Esperar cantando o sonho da quimera.

Tantos anos passaram
E o sonho vivi,
Ponho os olhos na escola
E sonho outra vez pelo que aprendi.

Acordo do devaneio
Levantando os olhos bem alto
Vejo o azul do céu que me bafeja
Além uma andorinha,
Voando de ramo em ramo
À procura do sol quente
À procura das sementes
Para fazer o seu ninho
Mais além um limoeiro
Com seus ramos esticados
Há um cheiro a laranjeira
De laranjas doces e amarelinhas
Que belo este dia,
Em que me fraseio
À Luz do Sol quente
Em puro mês de Fevereiro

Cidália Rodrigues  (In DOS FRANCESES ATÉ À GUIA)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

 SOPHIA DE MELLO BREYNER

 


Noite de Abril

Hoje, noite de Abril, sem lua,
A minha rua
É outra rua.

Talvez por ser mais que nenhuma escura
E bailar o vento leste
A noite de hoje veste
As coisas conhecidas de aventura.

Uma rua nova destruiu a rua do costume.
Como se sempre nela houvesse este perfume
De vento leste e Primavera,
A sombra dos muros espera

Alguém que ela conhece.
E às vezes, o silêncio estremece
Como se fosse a hora de passar alguém
Que só hoje não vem.



Sophia de Mello Breyner Andresen. Poetisa portuguesa 
(1919 - 2004)
 
 

quarta-feira, 20 de abril de 2016


Carlos Carranca
 
Pesam sobre mim
 
Pesam sobre mim
séculos de silêncio e tradição
Pesam sobre mim
recordações enigmas
Pesam sobre mim
séculos de poemas
oblações paradigmas
Pesam sobre mim
esses lugares de origem
antiquíssimos eternos
subterrâneos dizem,,,
Sobre mim
na paz vingada dos mortos
Pesam séculos absortos
,,, séculos.
 
Carlos Carranca
De seu nome completo, Carlos Alberto Carranca de Oliveira e Sousa,  é natural da Figueira da Foz (Portugal), onde nasceu em 1957.
Este poema encontra-se inserido na ANTOLOGIA DE POETAS FIGUEIRENSES.

segunda-feira, 18 de abril de 2016


ANTERO DE QUENTAL
(18 de abril de 1842 - 11 de setembro de 1891)
 
 
AD AMICOS
 
Em vão lutamos. Como névoa baça,
A incerteza das coisas nos envolve.
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas próprias redes se embaraça.

O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvaI e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.

Filhos do Amor, nossa alma é como um hino
À luz, à liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d'um presentir divino;

Mas n'um deserto só, árido e fundo,
Ecoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassível sobre o mundo.
 
Antero Tarquínio de Quental, de seu nome completo, foi um escritor e poeta português. Nasceu e morreu em Ponta Delgada (Açores).



 
 
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