terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

ATENEU COMERCIAL DE LISBOA




Canção amargurada

Meu amor anda perdido
Perdido ao longe no mar.
Senhora dos Navegantes,
Atendei o meu pedido,
Não o deixeis naufragar!

Ele disse-me ao partir:
“Seca o pranto, vá, Maria,
Que ao pôr-do-sol voltarei.”
E não há meio de vir
O Deus da minha alegria.

Estou aqui nesta praia
Desde que o sol despontou.
Ondas do mar revoltado,
Olhai que o sol já desmaia
E o meu amor não voltou.

Tenho na boca o sabor
Que tem as águas do mar…
Oh! Barquinho “DEUS TE GUIE”
Traze breve o meu amor
Que anda perdido no mar!

O sino, ao longe, na aldeia,
Aumenta-me a nostalgia;
Também tu, sino velhinho,
Fazes tua a minha dor
Chorando de noite e dia.

Já fui perguntar ao vento
Que vem das bandas do norte
Se o meu amor me ouviria
A rezar cheia de alento
P’ra Deus lhe dar boa-sorte.

E ninguém, ninguém responde!
Apenas, na voz das ondas,
O mar parece dizer
Que a vida da minha vida
Não tarda que vá morrer.

Oh! Morte sê carinhosa!
Que seria de mim, a pobre
Maria da Conceição?
Ah! Senhor, antes viver
Sem um bocado de pão!
…………………
Meu amor anda perdido
Perdido ao longe no mar.
Senhora dos Navegantes,
Atendei o meu pedido,
Não o deixeis naufragar!

Fernando Augusto (sócio n.º 365 do Ateneu) - Menção honrosa -

Na senda de organizações do género, muito espalhadas pelo país, o Ateneu Comercial de Lisboa levou a efeito, em 1938, os seus 1.ºs Jogos Florais, que registaram larga afluência de concorrentes.
O Ateneu Comercial de Lisboa foi fundado por um grupo de empregados do comércio, em 10 de Junho de 1880, quando se celebrava o tricentenário da morte de Luís de Camões.

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Orlando Valdez dos Santos

Ser Poeta

Ser Poeta! É cavalgar Pégaso e demandar
O mundo mítico de Psique e de seu louro
Amante. É entender, pondo-os em versos de ouro,
Dos pássaros o trilo e o bramir do mar!...

Ser Poeta! É ter, num “Ziggurat”, cantado Istar
Ou aclamado, grato, em Mênfis, o tesouro
Dos dons de Áton. É deixar na alma, o coro
Subir de laudes que a um deus quer celebrar!...

Ser Poeta! Enfim, é comungar co’a Natureza,
Co’o farfalhar das árvores, com o esplendor
Dos estrelados céus, co’a nossa Irmã Pobreza!...

É, com amor, ouvir a voz de Deus, que troa
Na Amplidão e no búzio humilde! Com amor,
Gloriar a Sua obra, eterna, justa e boa!...

Orlando Valdez dos Santos (Fátima, 13.2.1961)
Autor de "Breves Palavras sobre Mozart e a sua música", "O curso de "Língua e cultura árabes" do Centro de Estudos Humanísticos do Porto no ano lectivo de 1958/1959", "Introdução ao camito-semítico - Notas sobre as escritas hieroglífica e cuneiforme", "Sorrisos", "Cindarela", entre outras obras.

JÚLIO DINIS


DESESPERANÇA



Meu Deus, que destino!... Viver isolado,
Sem ter quem no mundo me possa entender!
Não era esta a vida que tinha sonhado
Nos sonhos passados dum outro viver!

As feras, as aves, as flores, quanto existe,
Se abrasam num terno, dulcíssimo ardor!
Só eu, solitário, viver sempre triste!
Viver ? — Não. Que é a vida, faltando-lhe o amor ?!

É ermo entre gelos, é hórrida noite,
Onde um só astro, sequer, nem reluz!
Como hei-de, sem crenças onde a alma se acoite,
Do Gólgota ao cimo levar minha cruz ?!

O anseio, este fogo que lento me inflama
Não hei-de apagá-lo num gosto real?
E os vagos transportes que sente quem ama
Terá de abafá-los paixão mundanal?

Não ter seio amigo no qual eu repouse
A fronte cansada de ardente pensar,
Uma alma conforme com a minha, a quem ouse
Dizer quanto sinto no peito a pesar I

Ai! triste, que sorte! Viver entre gelo,
Sentindo atear-se cá dentro um vulcão!
Nutrir tanto afecto no peito, e perdê-lo!...
Desejos que abrasam, mantê-los em vão!

Meu Deus! És injusto!... mas oh! se blasfemo,
Perdoa, que a mente mal pensa o que diz!
Perdoa, perdoa-me, ó Ente supremo,
Concede-me ainda que eu seja feliz!

Oh! dá-me a ventura que em sonhos já tivel...
Uma alma que est’alma soubesse entender!
Um ente, se acaso na Terra ele vive,
Que possa este vácuo de amor preencher.

Que imenso tesouro de afectos lhe dera !
Sorrira-lhe a vida num éden gentil!
Entre outros segredos então lhe dissera
Tais falas, cortadas por beijos aos mil!

Ai! foge, deixemos da vida mundana
Seus vãos devaneios, seu fogo falaz!
Busquemos sozinhos deserta cabana,
Aonde não turve ninguém nossa paz!

Que imensos prazeres que lá nos esperam I
Que ledo futuro que então nos sorri!
Ali não há mágoas, que o peito laceram,
Dos homens o bafo não chega até 'li!

Que vida, essa vida que então lá teremos
Tão rica de afectos, de gozos sem fim!
Que ternos enlevos, que doces extremos,
Que belos os dias, passados assim!

D'esp'ranças e flores no quadro tão lindo
No cimo do monte, da aurora ao nascer,
Iremos saudá-la, dizer-lhe: — Bem-vinda
Tu sejas, que à Terra dás luz e prazer!
Depois, vendo as aves com doce harmonia
Soltarem seus cantos no bosque d’além,
Na língua dos anjos, na maga poesia,
Aos Céus nossos hinos se elevam também;

Oremos ao Eterno, sagremos-lhe os cantos,
Que d'alma espontâneos prorrompem então!
Depois resolvamos provar dos encantos
Da vida inefável que anima a solidão

Da tarde ao crepúsculo, nos breves instantes
Dessa hora em que se unem as sombras e a luz,
Também nossas almas unidas e amantes
Anelam delícias que a noite conduz!

Ali, o murmúrio da rápida brisa
Banhada em perfumes roubados à flor,
E a linfa que mansa no prado desliza,
Virão segredar-nos mil falas d'amor!

— Amor — repercutam os ecos da serra!
— Amor — lá das aves se escute na voz!
E as nuvens, as fontes, os bosques, a terra,
— Amor — só respiram em torno de nós!

— Amor — alta noite veremos escrito
Com letras douradas no livro de Deus!...
Presságio divino do gozo infinito,
Que um dia teremos unidos nos Céus.

E um dia lá corre, de amor bafejado,
Ao outro que surge prazeres iguais!
E sempre esta vida!... Mas, ai! desgraçado!...
Que assim me enlevava d'esperanças banais!

Debalde iludir-me procuro num sonho!
Cruel desengano, cruel que ele é!
Ele aponta o futuro, sombrio e tristonho,
Sem crenças, sem glória, sem vida, sem fé!

A mim só me resta viver isolado!
Sem ter quem no mundo me possa entender!
Ai! sonhos tão belos que outrora hei sonhado I
Delícias passadas dum outro viver.

Júlio Dinis

Júlio Dinis, pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, nasceu no Porto em 14 de Novembro de 1839, ali falecendo a 12 de Setembro de 1871. Médico, escritor e poeta, deixou um importante legado de obras, entre as quais “As Pupilas do Senhor Reitor”, “Uma Família Inglesa”, “Serões da Província” e “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, parte das quais adaptadas ao cinema e ao teatro.

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Aníbal José de Matos


Para ti
Figueira


Olhar-te,
Esventrar e descobrir os teus segredos,
Descer à raiz do teu passado
E trazer à ribalta os teus heróis!

Sonhar-te,
Aprofundar o mar dos teus encantos,
Vaguear no rio do teu nome,
Ajoelhar aos pés do teu esplendor!

Subir à serra do teu mundo,
Beijar a encosta da alvorada,
Beber a areia do teu sangue
E viver à beira do teu Sol…

FIGUEIRA,
Deixa-me ver as vagas da esperança,
Contemplar a visão do teu luar
E amar sob a luz do teu abraço!

Aníbal José de Matos

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

JOSÉ RÉGIO


Convocação


Vem ter comigo, Noite escura
Como uma sepultura.
Tenho estrelas aos pés para te dar.
De mim te vai nascer o luar.

Saudade, vem, aperta-me a garganta
Com tua garra de carícias. Canta
A boca aberta ao ar que já lhe falha,
Mas que enchem versos que, mau grado, espalha.

Vem, Solidão, fazer-me companhia,
Remove do meu peito a laje fria.
Tenho vidas a mais, que não consigo
Viver senão contigo.

Tristeza e Humilhação, que procriais rancores,
Vinde, cobrir-vos-ei de flores.
Por ínvios descampados
Chego aos jardins suspensos enterrados.

Traições, Tédio, Amargor, Martírios, Agonias,
Enchei as minhas mãos vazias.
Liberais vo-las trago a receber-vos:
Tiranos que me fostes, soi-me servos.

Vem, Desespero! Enche-me o espaço,
Despoja-me do nada a que me abraço.
Quero embalar-te ao colo da esperança
Que nada pede, - tudo alcança.

Depois vem tu, quando te apraza.
Se ainda tremo ao pressentir-te a Asa,
Já, dada a volta, vou voltando à Origem.
Vem buscar o teu noivo outra vez virgem.

José Régio

José Régio, (pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira), nasceu em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901, onde faleceu em 22 de Dezembro de 1969. Foi um escritor distinto e poeta de fina estirpe.
Na sua obra poética conta-se obras como Poemas de Deus e do Diabo (de que se destaca o tão conhecido Cântico Negro (… Não sei por onde vou/Não sou para onde vou,/- Sei que não vou por aí!)), Cântico Suspenso, Colheita da Tarde e Poema para a minha Mãe
.

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

FLORBELA ESPANCA


Perdi os meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma…
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los;
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma…
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los?
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias…

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas…
Sobre o meu coração pesam montanhas…
Olho assombrada as minhas mãos vazias…

Florbela Espanca

Florbela Espanca, natural de Vila Viçosa, onde nasceu a 8 de Dezembro de 1894, faleceu em Matosinhos, no dia em que completou 36 anos (8 de Dezembro de 1930).
De seu nome completo Flor Bela de Alma da Conceição, foi uma poetisa portuguesa de referência no meio cultural português. Teve uma vida extremamente difícil, com muito sofrimento que transpôs para a poesia que patenteia muito da sua vida íntima.
Os seus versos transmitem nostalgia, amor, e uma indescritível expressão apaixonada e sofrida por tudo que a rodeou, mas simultaneamente de intensa solidão.
Entre muitas obras, publicou Livro de Mágoas, Livro de Sóror Saudade e Charneca em Flor.
O seu soneto mais conhecido intitula-se AMAR (Eu quero amar, amar perdidamente!/ Amar só por amar: Aqui...além.../(...)

Aníbal José de Matos

Conflito

Minh’alma quebrou-se ao congelar
A fragilidade latente.
Volatizou-se a visão
Que acalentava meus dias,
Caiu a terra nos restos
Duma imagem permanente.

Findaram-se no insondável
De teias invulneráveis
Os passos firmes e lestos
De quem tudo pressentia.
Finou-se a peregrinação
De quem implorava amor.

Resta a fé dum próximo e pleno encontro,
Sobra a confiança no eterno,
O passo decisivo no desconhecido,
A luta entre o sonho, o pesadelo e a verdade,
P’ra que sejam mais firmes os meus passos
Numa terra confusa e delirante.

Persiste o conflito entre o estar e o partir,
Entre o renunciar e o prosseguir,
Na perspectiva de que a felicidade,
Por essa fé,
Há-de voltar a acontecer.

E voltaremos a encontrar-nos.


Aníbal José de Matos, do livro “Conflitos” (1992)
 

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